Guarani, pequena cidade da Zona da Mata Mineira, antigo distrito de Rio Pomba, serviu de berço reencarnatório para o nosso biografado. Alencar de Paula Braga foi o quinto filho, de uma prole de dez, do casal João Evangelista Braga e Jovita de Paula Braga.
Seu pai, proprietário do Hotel Guarani e escrivão da Coletoria Estadual , coadjuvado por sua esposa, proporcionou aos filhos sólida formação moral, alicerçada nos valores da ética, do trabalho e do respeito ao próximo.
O menino Alencar, tão logo concluiu o curso primário, iniciou-se na atividade mercantil, transportando em seu cavalo, para propriedades vizinhas, pães frescos encomendados por várias famílias e de lá trazendo, ao retornar, ovos e frangos para atender à sua sempre crescente clientela na cidade.
Dessa forma, com os recursos que conseguiu amealhar, instalou em 1920, com apenas 19 anos, o estabelecimento comercial denominado \"Lojas Brasileiras\", que alcançaria grande progresso, alinhando-se entre os mais conceituados da região.
Foi nessa época que teve os primeiros contatos com a Doutrina Espírita. Sua genitora, Dona Jovita, apresentou sintomas de influenciação espiritual, que só puderam ser explicados e solucionados por três adeptos do espiritismo: Sr. Josué, pequeno comerciante, Sr. Nicola, imigrante italiano, e o Sr. Moisés Silva, guarda-livros.
A partir daí passou a ler \"O Livro dos Espíritos\" e \"O Evangelho segundo o Espiritismo\", que foram sua primeira fonte de estudos doutrinários.
Em 1923, casou-se com a jovem Martha de Campos Alvim, natural da vizinha localidade de Descoberto. O casal teve os filhos Adalberto, Maria Aparecida, Terezinha de Jesus, George e Jandir, que se tornaram espíritas desde o berço. Por volta de 1932, resolveu mudar-se para a Capital do Estado, a fim de oferecer horizontes mais amplos aos filhos e melhor qualidade de vida à família. Em Belo Horizonte, estabeleceu-se no ramo de armarinho com as lojas \"A Principal\", localizadas na Rua Rio de Janeiro e na Av. Afonso Pena.
Neste período, aproximou-se ainda mais da Doutrina Espírita, passando a freqüentar assiduamente reuniões na União Espírita Mineira e no Centro Espírita Oriente. Além de dedicar-se ao estudo de obras espíritas, realizava semanalmente, em sua residência na rua Eurita, 37, bairro Santa Tereza, o Culto do Evangelho no Lar congregando toda família.
Numa dessas reuniões domésticas, após a leitura da mensagem \"A Beneficência\", ditada por Adolfo, bispo de Argel, inserta no item 11 do capítulo XIII de \"O Evangelho segundo o Espiritismo\", ele e a esposa Martha muito se emocionaram, nascendo ali a inspiração de criarem uma instituição destinada a amparar as \"pobres criancinhas sem família\". A idéia que lhes fecundara os corações fê-los procurar companheiros idealistas com quem pudessem irmanar-se para a concretização do objetivo acalentado.
Os primeiros a serem procurados foram seus vizinhos espíritas da rua em que moravam, Leonardo e Delmitina Baumgratz, que acolheram com entusiasmo o convite. Era o dia 31 de janeiro de 1937.
Procurados por Alencar e Leonardo, dirigentes e colaboradores da União Espírita Mineira, entre os quais Rodrigo Agnelo Antunes, Oscar Coelho dos Santos, Geraldo Benício Rocha, Noraldino de Mello Castro, Rubens Costa Romanelli, Cícero Pereira, Osório de Moraes, Francisco Cândido Xavier e Antônio Loreto Flores, mostraram-se receptivos à idéia de criação de um abrigo para acolher, em nome de Jesus, crianças órfãs de amparo.
A sede da Casa-Máter Mineira serviu de útero abençoado àquele embrião fecundado pelo legítimo amor ao próximo. Ali se realizou, a 7 de fevereiro de 1937, a escolha do nome – Abrigo Jesus – e a da diretoria provisória da futura entidade, cujo nascimento se deu no dia 25 de julho do mesmo ano, quando foi realizada a Assembléia Geral de Constituição. Elaborado por Noraldino de Mello Castro, o Estatuto Social somente dois meses depois, em 22 de setembro de 1937, sob nº 249, obteve registro no Cartório das Pessoas Jurídicas. Era a certidão de nascimento ansiosamente esperada...
A primeira diretoria da, à época, novel instituição, teve a presidência confiada a Rodrigo Agnelo Antunes, então presidente da UEM, ficando Alencar Braga e Leonardo Baungratz como tesoureiro e secretário.
Alencar acompanhou, atento e diligente, as etapas que marcaram a vida do Abrigo Jesus – hoje modelar instituição de amparo à criança e ao adolescente –, como a compra do terreno em janeiro de 1940, o lançamento da pedra fundamental em 7 de fevereiro de 1940, a inauguração do prédio em 23 de junho de 1944 e a internação das primeiras crianças em 31 de março de 1946.
Embora residindo em Belo Horizonte, nunca perdeu o contato com a terra natal. Numa de suas visitas a Guarani, fundou, com amigos espíritas que lá deixara, o Centro Espírita João de Freitas, nome escolhido para homenagear o benfeitor espiritual que orientava as atividades mediúnicas de sua querida mãe, dona Jovita de Paula Braga.
O Abrigo Jesus tornou-se, além da família, a razão de ser de sua existência de espírita consciente e dedicado ao serviço do Cristo.
Até sua desencarnação, participou de todas as diretorias do Abrigo Jesus, deixando-nos a 18 de novembro de 1972, sem completar o primeiro mandato como presidente da Casa que tanto amou. Compareceram ao sepultamento de seu corpo, no cemitério do Bonfim , os amigos que soube granjear com sua honradez, trabalho e amor ao semelhante, no que se constituiu exemplo vivo de ação cristã \"sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita\".
Fonte: Jornal O Espírita Mineira nº 297