O povo escolhido estava muito cheio de si e de angústias para poder recebê-lO e entender-Lhe a mensagem de libertação.
Assinalado pelos cativeiros no Egito e na Babilônia, as suas eram ambições belicosas, agora que se encontrava sob as dominadoras legiões romanas.
A sociedade estava dividida entre os poderosos e os miseráveis.
Os primeiros, eram os que se locupletavam com as migalhas do poder temporal, político, civil e religioso, e com os favores das moedas e propriedades que se atribuía, direito de uso e de gozo. Os outros, eram os dependentes, as vítimas da usurpação e da prepotência, que se espalhavam por toda parte como praga avassaladora gerando sofrimento inaudito.
Os ricos e felizes não tinham a sutil percepção para sentir o desespero das massas, que manipulavam de acordo com os seus interesses mesquinhos e danosos.
Os desditosos habituaram-se ao escárnio e ao abandono a que foram relegados.
Deus, para ambos os grupos, era o Senhor dos Exércitos, o Vingador, que enviaria à Terra o seu libertador, no momento adequado, aquele que encharcaria de sangue as terras, que consideravam abençoadas, nas quais surgiria a felicidade para todos.
Gananciosos, os abastados, estavam sempre insaciáveis, enquanto que resignados e indiferentes os miseráveis, formavam duas moles distintas, que periodicamente se enfrentavam, mal escondendo os ódios que os dominavam.
As tricas farisaicas, as covardes perseguições a qualquer pretexto, mesmo as de natureza religiosa, baseadas em sofisticados artigos legais elaborados para proteger os poderosos, multiplicavam-se.
No seio dessas massas agitadas, a desconfiança e a temeridade exerciam papel preponderante nos relacionamentos.
O zelo falso dos religiosos soberbos cuidava das aparências, olvidando-se da essência dos ensinamentos tradicionais, centrados no amor a Deus, na compaixão e na misericórdia para com os infelizes, dividia-os lamentavelmente, empurrando para a vilania os deserdados.
Todos experimentavam medo, mesmo aqueles que manejavam as rédeas do poder.
É que a injustiça é serva da própria impiedade, tornando-se autodestrutiva.
A esperança batera em retirada, e a modorra em torno dos ideais permanecia no lugar do antigo entusiasmo do povo que aparentava confiar em Deus.
\"Até quando - todos se interrogavam - o longo esquecimento divino, a respeito das suas dores?\"
Assim era o povo de Israel, os orgulhosos filhos de Abraão, naqueles já longínquos dias, que assim se comportava, atrevendo-se a considerar-se como eleito, mas cuja conduta o desmentia.
Israel, pois, não O merecia.
Assim mesmo, em uma noite silenciosa e fria, o Rei Celeste desceu do esplendor do sólio estelar e veio viver entre as criaturas.
Elegeu um burgo onde as tradições situavam como berço, o lugar em que nasceria o Messias.
Evitou testemunhas do momento em que tomou o envoltório material, a fim de confundir-se com a massa, viver com todos, sendo diferente dos mesmos.
Fez-se acompanhar de coortes espirituais que prepararam a psicosfera em que mergulhou e de animais domésticos, em doce convívio de amor.
Logo recebeu a visita de pastores anônimos e de reis magos que O homenagearam, em demonstração da Sua grandeza, momentaneamente apagada no berço de palha da singela estrebaria.
Escolheu um período ruidoso, festivo, a fim de preparar o advento da Boa Nova, como mensagem encantadora e pura, assinalada pelos júbilos do coração que se desencarcera das paixões e da mente que se exalta na direção do amor.
Aquele nascimento singular, num momento de grande alucinação coletiva na Terra, deveria dividir os fastos da História, assinalando o Seu como o período da preparação da paz.
Não era um Conquistador odiento, que vinha armado para os combates destrutivos, mas um Vencedor, que viera somente para amar.
Por isso, não foi reconhecido, ou melhor, não O quiseram conhecer, porque estavam preparados para a guerra, para o crime, para o ódio, para o desforço, longe dos sentimentos da compaixão e da misericórdia, da compreensão e da caridade.
Israel era soberba e o seu povo, ingrato.
Por isso, Roma a esmagava com as suas legiões impiedosas, ameaçando sempre com a força e a arrogância dos seus administradores de um dia.
Não havia lugar, naqueles corações, para a compreensão da fragilidade humana, da temporalidade de todas as coisas, para o esforço de solidariedade.
Forte, então, era aquele que esmagava, mesmo que fosse vencido logo depois, pela doença, pela desgraça política, pela morte...
O fraco era odiado, porque não revidava, nem disseminava o desprezo ao inimigo, em face da sua situação subalterna.
Jesus, porém, foi a força do amor que modificou as estruturas do pensamento e da razão, alterando, por definitivo, a face do planeta.
Nunca mais a Terra seria a mesma depois dEle.
Antes, sofria o peso do carro da guerra perversa e das devastações do ódio.
É certo que ainda não cessaram os combates do homem e da mulher contra os seus irmãos, no entanto, permanece o sentimento de fraternidade em memória e em homenagem a Ele.
Combatido, permaneceu amando.
Odiado, continuou amando.
Crucificado, persistiu amando.
E morto, ressuscitou do túmulo, a fim de prosseguir amando...
Quando chegar a evocação do Seu Natal, ama em memória do Seu amor.
Não te preocupes em oferecer coisas, na alucinação mercadológica em que Ele é substituído por Papai Noel, ou esdrúxulas figuras outras, em sórdido combate contra a Sua existência entre nós.
Lembra-te de doar-te, de fazer algo mais pelo teu próximo, além do que o dinheiro pode comprar com indiferença, mas que somente o amor pode ofertar.
E celebra a evocação da noite inesquecível, contribuindo como todo o fervor em benefício da paz na Tera...
Livro: O Amor como Solução - Joanna de Ângelis / Divaldo Franco - cap. 30